Monitorização ecológica dos Trilhos Pedestres da Rota Vicentina (parte 2)

5 minutos de leitura

O desafio dos trilhos alternativos

Um dos impactes que estava previsto, por se observar na generalidade das rotas pedestres um pouco por todo o mundo, é a proliferação de trilhos alternativos. 

Quer isto dizer que as pessoas saem do trilho marcado e criam (ou acentuam) outros trilhos. Para quê? Geralmente para atalharem caminho, para evitarem pisos difíceis, porque não percebem qual o trilho oficial ou ainda para chegarem a um ponto de interesse, como por exemplo o topo da falésia.

O aumento de trilhos alternativos observou-se em alguns segmentos amostrados, sobretudo na zona do Malhão e no Cabo de São Vicente. Nem todos os trilhos alternativos serão de atribuir aos caminhantes da Rota Vicentina, uma vez que estes dois locais são muito frequentados por outros utilizadores. Contudo, um aspeto ficou claro: os caminhantes saem mais do trilho quando a vegetação é menos densa, com muitas clareiras. Raramente se encontra um trilho alternativo em locais com boa cobertura por vegetação.

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Quando a vegetação é densa, os caminhantes tendem manter-se no trilho (esquerda), quando há muitas clareiras, tendem a dispersar-se (direita)

Uma situação em que são claramente os caminhantes a abrir um trilho alternativo corresponde à abertura de um trilho pedestre ao lado de um caminho frequentado por veículos todo-o-terreno, com areia solta e profunda. Para evitar esse piso difícil, os caminhantes seguem ao lado do caminho.

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Trilho pedestre ao lado de estradão em areia

Também há boas notícias: encontraram-se trilhos próximos dos da Rota Vicentina e que, desde 2013, têm vindo a fechar. Ou seja, trilhos dispersos que existiam antes do início do projeto Rota Vicentina deixaram de ser utilizados e a vegetação está a ocupar esse espaço. Este resultado mostra que se conseguiu, em muitos locais, que o impacte das passagens se limite ao trilho em vez de se dispersar pelo terreno. Este é, de modo geral, um dos objetivos do traçado de trilhos nas áreas naturais: disciplinar o acesso das pessoas, limitando o impacte a uma linha estreita, com pouco significado ao nível do ecossistema, em vez de dispersar a perturbação pelo ecossistema.

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Trilho que deixou de ser usado e tem vindo a fechar desde 2013

Trilho que deixou de ser usado e tem vindo a fechar desde 2013

Outra previsão de impacte que constava do estudo de 2013 era a degradação dos trilhos, que podia expressar-se por exemplo pelo aumento da profundidade e da largura do trilho ou pela erosão do solo sobre o trilho ou na sua envolvente.

A largura dos trilhos aumentou em quase todos os locais amostrados, mas é mais expressiva quando a vegetação é menos densa. O aprofundamento dos trilhos e a erosão ocorre essencialmente quando o trilho se desenvolve em locais com algum declive, solos secos de areia solta e baixa cobertura por vegetação. Este conjunto de fatores favorece também o aprofundamento do trilho e a queda de areia para cotas mais baixas.

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As raízes expostas denunciam o aprofundamento do trilho

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Em terreno inclinado, alguma areia resvala para cotas mais baixas

De uma forma geral, quando a vegetação dunar tem uma boa cobertura e o terreno é mais plano, o trilho está bem conservado e não há sinais de erosão ou de pisoteio fora do trilho. 

Esta ausência de impactes encontrou-se também nos trilhos do Caminho Histórico, que se desenvolvem em zonas de matos, floresta, agroflorestal ou ribeirinho. O solo mais compactado e a proteção do solo pela vegetação mantêm os trilhos em boas condições, sem alterações significativas nos últimos 10 anos.

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Quando a vegetação é densa, o trilho está bem conservado

Outro impacte previsto, mas menos observado, foi o aumento de marcas deixadas pelos utilizadores, como lixo, vestígios de fogueiras ou sinais de permanência sobre vegetação (piqueniques, acantonamento, etc.). As únicas marcas observadas foram de lixo, mas o seu aumento em relação a 2013 observou-se apenas em locais com mais utilizações, nomeadamente pesca, marisqueio, proximidade de locais de permanência ilegal de caravanas. Assim, é difícil atribuir essas marcas aos caminhantes quando nos segmentos de trilhos mais inacessíveis as marcas são inexistentes.

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Paula Canha

Paula Canha, bióloga, mestre em Biologia da Conservação, professora na Escola Secundária de Odemira. Vive no concelho de Odemira desde 1987. Os seus principais interesses são o conhecimento, divulgação e preservação dos valores naturais do sudoeste de Portugal. Participou em numerosos estudos ambientais, trabalhos de monitorização ecológica e cartografia de valores naturais. Colabora, entre outros […]

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